Arqueologias Efêmeras

Trauma#21

 

Texto crítico produzido pela curadora Nathalia Lavigne para exposição TRAUMA 

Arqueologias Efêmeras

Convém fazer um breve exercício imaginativo ao olhar para as estruturas de concreto e vigas metálicas repetidas em série nas fotos de Ivan Padovani. Que história seria possível contar a partir dessas construções, caso nos deparássemos com elas daqui a mil anos? Se os edifícios e planos de uma cidade são também documentos materiais de uma civilização, que tipo de testemunho revelariam esses esqueletos urbanos congelados no tempo? Estariam inacabados ou semidestruídos, como indicam as marcas da ferrugem metálica escorrida sobre o concreto? Sua vocação monumental seria apenas uma intenção sem muito propósito, ou teriam sido erguidos para de fato celebrar alguma coisa, terminando como monumentos involuntários em homenagem à coisa alguma?

Há um estado de suspensão permanente nessas imagens. Como portais do tempo, elas parecem anunciar o prelúdio de uma nova fase ainda desconhecida. O futuro é imponente, ambicioso, promissor, mas não chegou e não se sabe quando vem. Enquanto isso, segue-se em um presente que se repete na forma de monótonas vigas de concreto, uma ao lado da outra, sob o mesmo céu monocromático com pouquíssimas variações de cinza.

A busca por arqueologias efêmeras de uma cidade que produz suas memórias sem muito refletir sobre o que guarda para o futuro é uma parte importante no processo do artista. Nessa nova série, ele acompanhou, durante dois anos (2015-17), um conjunto de obras de infraestrutura por São Paulo que haviam sido interrompidas nesse período. As construções inacabadas, embora fotografadas em lugares diferentes, parecem ser quase sempre as mesmas – a eliminação de qualquer outro detalhe na composição das imagens reforça esse aspecto. A cidade nunca é vista como um todo, mas em partes desmembradas, em registros aparentemente genéricos de lugar nenhum, não fossem pelos indícios tão familiares que evocam a paisagem urbana da capital paulista.

A repetição e o desmembramento têm também uma relação importante com o título da série e da exposição. Em O Retorno do Real (1996), o autor americano Hal Foster desenvolve o conceito de “realismo traumático” baseado na noção de trauma da psicanálise lacaniana, que entende a repetição como uma única maneira de acessar um real que nunca aconteceu; uma tentativa de retirar todo e qualquer significado das imagens até esvaziá-las completamente.

Na sequência montada logo na primeira parede, Ivan apresenta uma mesma fotografia multiplicada por cinco. Por um instante, olhamos as marcas e camadas que escorrem pela lateral do bloco de concreto tentando encontrar uma mínima diferença entre cada imagem, algum detalhe que indique uma progressão ou continuidade naquela cena, que poderia se repetir infinitamente. A mesma dúvida é apresentada em outros momentos, mas de forma contrária: estruturas que parecem as mesmas, fotografadas de outros ângulos, quando, na realidade, são todas distintas, embora muito similares umas às outras.

 

“Não há praga urbana que seja tão devastadora quanto a Grande Praga da Monotonia”, escreveu Jane Jacobs em Death and Life of Great American Cities (1961), uma das principais críticas ao plano urbano ortodoxo do modernismo. A autora parte de Nova York como exemplo para combater projetos que queriam adequá-la aos moldes do que era entendido como uma “grande cidade” na época, com viadutos e vias expressas atravessando bairros inteiros. Muitas dessas ideias respigaram tardiamente em São Paulo, a partir dos anos 1970.

As imagens de Ivan Padovani carregam um pouco da monotonia descrita por Jacobs, em que a falta de diversidade urbana leva uma cidade a ruir soturnamente. E aí restam apenas seus monumentos involuntários, vistos por ninguém. (Nathalia Lavigne)

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